#1 Q520
00:00
Língua Portuguesa › Interpretação de Texto e Gramática
• Ano: 2021 • Banca: Crs • Órgão: Polícia Militar de Minas Gerais • Cargo: Soldado Militar • Escolaridade: Superior • Acerto: 100% • Médio

[TEXTO DE APOIO – LÍNGUA PORTUGUESA]

Leia o texto abaixo para responder às questões 1 a 5.
Mesmo?
Há alguns anos, namorei um professor de Direito e procurador-geral da União (do
tipo com mestrado, doutorado, pós-doutorado e mil especializações) cujo apreço pela
exibicionismo, esse homem, nos nossos momentos de brigas (que não eram poucos;
afinal, éramos mais possessivos do que todos os pronomes possessivos juntos), tentava,
de todas as formas, mostrar que dominava a última flor do Lácio, vulgo língua
portuguesa, mais do que eu. E o que acontecia? Eu ficava tão irritada com a situação
que sempre perdia no quesito argumentação.
Certa vez, após almoçarmos em uma tarde de sábado, ele foi para a minha casa.
Enquanto esperávamos pelo elevador, eu comentei:
 Ainda chegará o dia em que todas essas placas de aviso de elevadores serão
corrigidas. Aff!
 Oi?
 Você nunca reparou? “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se
encontra parado neste andar. ”
 E daí?
 E daí que a palavra “mesmo” não pode retomar outra palavra, como elevador.
 Claro que pode! “Mesmo” é um pronome demonstrativo. Está demonstrando
onde devemos ou não entrar.
 Realmente, “mesmo” pode atuar como pronome demonstrativo, mas ele retoma
uma oração, não uma palavra, Maurício.
 Exemplo?
 Eu sou uma namorada fiel; por isso espero que o meu namorado faça o mesmo.
Viu? Recupera-se, aí, a oração sobre fidelidade.
 Isso é uma indireta, Cíntia?
 Não, é direta mesmo.
 E esse “mesmo” de agora?
 É um advérbio com valor reforçativo, Maurício. Ele reforça quão galinha você é.
O elevador chegou. Vamos.
 Mesmo? Hahaha…
 Não fuja do assunto. Estou cansada das suas ciscadas por aí.
Chegando, eu retirei as minhas roupas e coloquei um roupão. Ele tirou os sapatos,
como quem mostra que vai ficar, mas recebeu um telefonema sei lá de quem e
prontamente respondeu:
 Claro que vou. Em dez minutos estarei aí.
 Oi??? Você vai me deixar aqui mesmo?
 E esse “mesmo”?
 Equivale à palavra “realmente” e ao provável término do nosso namoro se você
sair daqui.
Perguntei para ele de quem se tratava, mas Maurício desconversou. Disse que eu
não conhecia a pessoa em questão, que ele precisava “dar uma passada” no tal lugar,
que eu não iria gostar do barzinho, blá-blá-blá… E começou a ladainha linguisticamente
ortodoxa comum aos discursos que ele ensaiava nas nossas brigas:
você é a mulher pela qual sou apaixonado. Você tem tudo quanto quer de mim e ainda
assim sempre duvida dos lugares onde digo que estou.
 É mesmo? Fiquei lisonjeada…
 Esse “mesmo” foi irônico. Não admito ironias sobre a minha fidelidade.
 Maurício, você não me engana. Eu ouvi voz de mulher. Quem está lá? Quantas
mulheres são? De onde é esse amigo misterioso do qual eu nunca ouvi falar? Aposto
que é aniversário de mulher, por isso você não quer me levar. Não é? Você já estava
distante na hora do almoço. Eu senti!
 Não me venha, Cíntia Chagas (ele sempre me chamava de Cíntia Chagas
durante as brigas), com o seu discurso falacioso! Sou um namorado de cuja fidelidade
você não pode duvidar. Quer saber? Vou embora. Passar bem.
E saiu correndo do meu apartamento. E eu saí correndo atrás dele, afinal de
contas, ele tinha de me ouvir. Mas o caso é que eu estava de roupão e não me lembrei
desse detalhe. Pois bem: vi-me de roupão, no meio da rua, brigando com o Senhor
Sabe-Tudo. Cena de novela: atirei-me na frente do carro dele e disse:
 Daqui você não sai.
Ele, frio como um iceberg, respondeu:
 Só se você me disser que “mesmo” substitui palavra, que estou certo.
 Maurício, não me irrite! Já expliquei que “mesmo” não substitui palavra e ponto
final.
 Ele, divertindo-se com a situação, disse:
 “Antes de entrar no elevador, verifique se este se encontra parado neste andar”.
Pronto, Maurício. Agora saia do carro. Os vizinhos já estão olhando. Não vê que estou de
roupão?
 É mesmo? Coitadinha… Isso é para você aprender a não desconfiar de mim.
Deu ré e foi embora.
Então eu fiquei ali, na rua, de roupão, sem a chave do portão do prédio, à espera
de um vizinho com quem eu pudesse contar.
E você, leitor, neste momento pergunta a si mesmo: mesmo? De roupão na rua?
Mesmo…
CHAGAS, Cíntia. Sou péssimo em português: chega de sofrimento! Aprenda as principais regras de
português dando boas risadas. 1 ed. Rio de Janeiro: HarperColllins, 2018.


[QUESTÃO 1]
Assinale a única opção CORRETA. Os tipos textuais predominantes no fragmento do texto “Há alguns anos, namorei um professor de Direito e procurador-geral da União (do tipo com mestrado, doutorado, pós-doutorado e mil especializações) cujo apreço pela língua portuguesa chegava a ser irritante até para mim. ” são os tipos:

A
Descritivo e injuntivo.
B
Descritivo e dissertativo.
C
Narrativo e argumentativo.
D
Narrativo e descritivo.