[TEXTO DE APOIO – LÍNGUA PORTUGUESA]
Leia o texto abaixo para responder às questões 1 a 5.
Mesmo?
Há alguns anos, namorei um professor de Direito e procurador-geral da União (do
tipo com mestrado, doutorado, pós-doutorado e mil especializações) cujo apreço pela
exibicionismo, esse homem, nos nossos momentos de brigas (que não eram poucos;
afinal, éramos mais possessivos do que todos os pronomes possessivos juntos), tentava,
de todas as formas, mostrar que dominava a última flor do Lácio, vulgo língua
portuguesa, mais do que eu. E o que acontecia? Eu ficava tão irritada com a situação
que sempre perdia no quesito argumentação.
Certa vez, após almoçarmos em uma tarde de sábado, ele foi para a minha casa.
Enquanto esperávamos pelo elevador, eu comentei:
Ainda chegará o dia em que todas essas placas de aviso de elevadores serão
corrigidas. Aff!
Oi?
Você nunca reparou? “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se
encontra parado neste andar. ”
E daí?
E daí que a palavra “mesmo” não pode retomar outra palavra, como elevador.
Claro que pode! “Mesmo” é um pronome demonstrativo. Está demonstrando
onde devemos ou não entrar.
Realmente, “mesmo” pode atuar como pronome demonstrativo, mas ele retoma
uma oração, não uma palavra, Maurício.
Exemplo?
Eu sou uma namorada fiel; por isso espero que o meu namorado faça o mesmo.
Viu? Recupera-se, aí, a oração sobre fidelidade.
Isso é uma indireta, Cíntia?
Não, é direta mesmo.
E esse “mesmo” de agora?
É um advérbio com valor reforçativo, Maurício. Ele reforça quão galinha você é.
O elevador chegou. Vamos.
Mesmo? Hahaha…
Não fuja do assunto. Estou cansada das suas ciscadas por aí.
Chegando, eu retirei as minhas roupas e coloquei um roupão. Ele tirou os sapatos,
como quem mostra que vai ficar, mas recebeu um telefonema sei lá de quem e
prontamente respondeu:
Claro que vou. Em dez minutos estarei aí.
Oi??? Você vai me deixar aqui mesmo?
E esse “mesmo”?
Equivale à palavra “realmente” e ao provável término do nosso namoro se você
sair daqui.
Perguntei para ele de quem se tratava, mas Maurício desconversou. Disse que eu
não conhecia a pessoa em questão, que ele precisava “dar uma passada” no tal lugar,
que eu não iria gostar do barzinho, blá-blá-blá… E começou a ladainha linguisticamente
ortodoxa comum aos discursos que ele ensaiava nas nossas brigas:
você é a mulher pela qual sou apaixonado. Você tem tudo quanto quer de mim e ainda
assim sempre duvida dos lugares onde digo que estou.
É mesmo? Fiquei lisonjeada…
Esse “mesmo” foi irônico. Não admito ironias sobre a minha fidelidade.
Maurício, você não me engana. Eu ouvi voz de mulher. Quem está lá? Quantas
mulheres são? De onde é esse amigo misterioso do qual eu nunca ouvi falar? Aposto
que é aniversário de mulher, por isso você não quer me levar. Não é? Você já estava
distante na hora do almoço. Eu senti!
Não me venha, Cíntia Chagas (ele sempre me chamava de Cíntia Chagas
durante as brigas), com o seu discurso falacioso! Sou um namorado de cuja fidelidade
você não pode duvidar. Quer saber? Vou embora. Passar bem.
E saiu correndo do meu apartamento. E eu saí correndo atrás dele, afinal de
contas, ele tinha de me ouvir. Mas o caso é que eu estava de roupão e não me lembrei
desse detalhe. Pois bem: vi-me de roupão, no meio da rua, brigando com o Senhor
Sabe-Tudo. Cena de novela: atirei-me na frente do carro dele e disse:
Daqui você não sai.
Ele, frio como um iceberg, respondeu:
Só se você me disser que “mesmo” substitui palavra, que estou certo.
Maurício, não me irrite! Já expliquei que “mesmo” não substitui palavra e ponto
final.
Ele, divertindo-se com a situação, disse:
“Antes de entrar no elevador, verifique se este se encontra parado neste andar”.
Pronto, Maurício. Agora saia do carro. Os vizinhos já estão olhando. Não vê que estou de
roupão?
É mesmo? Coitadinha… Isso é para você aprender a não desconfiar de mim.
Deu ré e foi embora.
Então eu fiquei ali, na rua, de roupão, sem a chave do portão do prédio, à espera
de um vizinho com quem eu pudesse contar.
E você, leitor, neste momento pergunta a si mesmo: mesmo? De roupão na rua?
Mesmo…
CHAGAS, Cíntia. Sou péssimo em português: chega de sofrimento! Aprenda as principais regras de
português dando boas risadas. 1 ed. Rio de Janeiro: HarperColllins, 2018.
[QUESTÃO 6]
“E começou a ladainha linguisticamente ortodoxa comum aos discursos que ele ensaiava nas nossas brigas. ”
Assinale a opção que apresenta a classificação morfológica CORRETA da palavra destacada no fragmento do texto “Mesmo?” acima:
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